Segundo Vaconcellos (1995, p.43), “Avaliação é um processo abrangente da existência humana, que implica uma reflexão crítica sobre a prática, no sentido de captar seus avanços, suas resistências, suas dificuldades e possibilitar uma tomada de decisão sobre o que fazer para superar obstáculos.” Assim sendo, avaliar é mais do que aplicar uma prova para verificar quantas respostas o aluno acertará.
A avaliação classificatória tem como pressuposto a classificação do aluno em capaz ou incapaz de atingir uma determinada média, que a priori não foi estabelecida por ele. De forma uniforme visa identificar aqueles alunos que estão aptos a seguir os estudos em uma nova série e a discriminar e marginalizar aqueles alunos que não conseguiram atingir as notas mínimas para avançar nos estudo, criando uma situação de baixa estima para esses alunos. Este tipo de avaliação não considera o processo de aprendizagem do aluno em toda a sua plenitude, considera apenas o desempenho do aluno ao fim de um determinado tempo de estudo.
Já a avaliação mediadora procura fazer do processo de avaliação um meio para identificar problemas de aprendizagem dos alunos, identificar problemas em relação ao professor na forma de trabalhar com os alunos em sala de aula de modo que ele, o professor, possa rever sua prática e procurar meios diferenciados para qualificar sua atuação docente. A avaliação mediadora respeita a individualidade de cada aluno, seu tempo de aprendizagem, sua cultura, seus conhecimentos prévios e procura observar os potenciais de cada um para que não haja distorções, desfavoráveis aos alunos, na hora de emitir um parecer sobre o desenvolvimento da aprendizagem dos mesmos.
O ato pedagógico entre aluno X professor e vice e versa limita-se, nos moldes da escola que temos hoje, a transmissão de conhecimento e a avaliação do quanto desse conhecimento o aluno conseguiu guardar em sua memória, para não dizer decorou para fazer uma prova. Temos hoje uma escola que vê a avaliação como um fim em si mesmo. Podemos observar isso devido ao quanto de mobilização a escola dispensa para levar a cabo o processo avaliativo. Olhando o calendário escolar, de qualquer escola pública, poderemos ver que as informações principais dizem respeito ao período de provas e os conselhos de classe, que são os momentos em que irá se analisar o desempenho dos alunos. E os professores ainda reforçam esse tipo de postura dizendo que precisam saber quando será o conselho de classe, pois querem estar com as notas em mãos. Quando isso deveria ser diferente, ou seja, os mementos mais importantes deveriam ser aqueles em que os processos de aprendizagem estão acontecendo – toda hora. A escola tornou-se uma “máquina” de produzir resultados. Esses resultados são obtidos através de provas que vão determinar quem está ou não está apto a avançar, quem conseguiu e quem não conseguiu. Não importa aqui o quanto o aluno se esforçou, o quanto ele realmente aprendeu, quais foram suas dificuldades, como superou obstáculos. Importa a nota no final da trimestre. A escola reduziu-se a isso.
Os professores como peça importante dentro do processo de avaliação reproduzem o modelo ao qual foram submetidos quando estavam nos bancos escolares. Mesmo que muitos reconheçam que a finalidade de avaliar não se limita a quantificação de uma prova, mesmo que saibam quanta tensão, por parte dos alunos, está envolvida antes e durante as provas, mesmo que o conhecimento que foi construído pelo aluno durante certo período é maior do que dez questões que terá que responder na prova, mesmo que ele tenha percebido durante as aulas que o aluno aprendeu determinado conteúdo, mesmo assim o referencial utilizado para dizer se o aluno está apto ou não para avançar é a avaliação classificatória. Isso torna o professor, no meu ponto de vista, o maior responsável pela perpetuação da avaliação classificatória.
Falando da minha prática na questão avaliação gostaria de fazer a meia culpa aqui, pois embora exista a vontade de fazer as coisas de forma diferente, não basta só ter vontade. Então na medida do possível procuro utilizar estratégias diferentes para avaliar meus alunos. Em princípio penso que todo momento serve para avaliar, então procuro estar atento às perguntas que meus alunos fazem porque elas podem apontar caminhos que indicam a possibilidade de avaliar o que estamos trabalhando no momento. Procuro avaliar meus alunos não só através de provas, exames, mas em todos os momentos em ques estamos juntos, muitas vezes até mesmo quando estou chegando ou saindo da escola. Por exemplo, outro dia falávamos sobre a campanha da Prefeitura de Porto Alegre sobre o novo sinal de trânsito aquele de estender a mão em locais com faixa de pedestre sem sinaleira. Um dos alunos disse que tinha entendido e sabia da importância de atravessar a rua com segurança. Dias depois vi o mesmo aluno em uma rua no entorno da escola atravessando-a fora da faixa de pedestre, sendo que havia uma bem próxima do local onde estava atravessando. Esse momento, para mim, foi um momento de avaliação, pois pude ver que não estava colocando em prática o que disse que aprendeu. Existe aí uma questão cultural.
Nas avaliações em que utilizo a prova como instrumento diagnóstico, sobre o que foi aprendido pelo aluno, procuro entender o raciocínio do aluno para determinadas respostas, tento entender que estratégias foram utilizadas pelos alunos para chegar a determinada conclusão. Nas atividades cotidianas de sala de aula desafio os meus alunos a justificarem suas respostas, ou seja, eles têm que me provar porque dizem sim ou não para algo que tenham respondido ou problema solucionado. Conciliar nota com o que percebo em relação ao processo de aquisição de conhecimento é complicado porque os pais esperam receber uma nota pelo desempenho dos alunos. Muitas vezes as notas não expressam o que realmente o aluno aprendeu.
Os resultados das avaliações para mim servem para poder ver o que o aluno aprendeu como ele aprendeu, porque não aprendeu. Tento através dos resultados das avaliações perceber que estratégias que utilizei que não deram certo, se faltou algo da minha parte em relação a algum aluno especificamente. Nesse sentido penso que estar aberto a novas propostas de avaliação, perceber cada aluno como um ser único, lutar contra meus próprios preconceitos, são momentos que possibilitam um arejamento das idéias para que outras formas de avaliar possam ser aplicadas com o intuito qualificar minha atuação nesse campo.
Referências Bibliográficas:
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Avaliação: concepção dialética-libertadora do processo de avaliar escolar. São Paulo, Libertad, 1995.
FERREIRA, Lucinete. O contexto da prática avaliativa no cotidiano escolar. In:_____. Retratos da avaliação: conflitos, desvirtuamentos e caminhos para a superação. Porto Alegre: Mediação, 2002. p.39-61.
GOÑI, Javier Onrubia. Rumo a uma avaliação inclusiva. Pátio, Porto Alegre, n. 12, ano 3, p. 17-21, abr./fev., 2000.

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