sexta-feira, outubro 23, 2009

Linguagem – Narrativa Infantil

A transcrição abaixo é de uma história contada pela menina Alexandra, que tem seis anos de idade. Ela estuda na E.E.E.F. David Canabarro no bairro Jardim Leopoldina em Porto Alegre.

“Era uma vez uma formiguinha, aí ela estava precurando comigo, procurando comida. Aí ela estava numa, numa praça, só que uma criancinha pego e piso nela, ela fico com as perninhas pra cima, a cabeça dobrada e toda dividida. Aí – risos – aí a formigui..., aí a formiguinha, a mãe da formiguinha pego a formiguinha e daí enterra a formiguinha, e a formiguinha fico toda esborrachada”.

Perguntei: Por que o menino pisou na formiga?

Resposta: “Por que uma formiga pico ele e não sabia aí a formiga prego, aí ele pego e piso na nessa formiga”.

Perguntei: A formiguinha pisou nele também?

Resposta: “Não a formiguinha picou ele”.

Perguntei: “E aí a formiguinha picou ele e daí?

Resposta: “Piso na formiguinha. Aí depois a formiguinha fico muito mal, só que aí ela desencarnou e viveu.

Perguntei: O que é desencarnar?

Resposta: “Nã é volta pa vive.

A história que a Alexandra nos conta demonstra como ela mistura realidade e ficção, como é próprio para uma menina da sua idade, segundo Maria Cecília Perroni em seu livro Desenvolvimento do Discurso Narrativo.

Ao mesmo tempo em que faz referências a situações que ela já pode ter vivenciado, como brincar em uma praça, ser picada por uma formiga e depois matá-la, ela pode realmente conhecer histórias que falam sobre formigas e a relação delas com os seres humanos.

Podemos perceber também que a menina, seja na escola ou em casa, já está habituada a ouvir histórias, pois a expressão: “Era uma vez...”, é um indício de que ela já participou de alguma contação de história como ouvinte. Agora faz dessa expressão parte de seu repertório como contadora de suas histórias.

Quando provoco a menina fazendo indagações, me parece que sua justificativa tem a ver com a realidade que vivemos. Pois, se a formiga picou o menino, é normal que ele revide pisando nela. Via de regra é isso que tem acontecido nas escolas com nossos alunos, porque é assim que acontece na sociedade. Sendo assim, na história é possível que isso aconteça também.

Mai um aspecto interessante na narrativa da Alexandra é o desfecho da história. Há claramente a mistura entre realidade e ficção: a formiga desencarna. Possivelmente a menina já deve ter ouvido conversas entre adultos que fale sobre desencarnar e reencarnar. Morrer para nascer de novo. Assim como nas histórias tradicionais infantis as coisas terminam bem, na história da Alexandra não foi diferente: ”... só que aí ela desencarnou e viveu”. Só faltou o: “Casaram-se e foram felizes para sempre”.

REFERÊNCIAS

Tem um monstro no meio da história (GURGEL, 2009).

In: Revista Nova Escola. Agosto 2009.

O vídeo abaixo apresenta a menina contando sua história da Formiguinha.


2 comentários:

Simone disse...

Olá Mario!
Interessante ouvir a menina contar sua história. Será que, se não tivessem outras pessoas por perto, ela teria contado da mesma maneira? Costumas trabalhar com histórias na tua sala de aula?
Hoje assisti no cinema um filme brasileiro chamado O contador de histórias. Já viste? Vale a pena.
Um abraço, Simone - Tutora sede

Beatriz disse...

Mário, teu vídeo com a menina está ótimo. Tuas perguntas foram bem oportunas, principalmente qdo perguntas se a formiga pisou nele. Vistes a carinha dela? Para ela, aquilo era um absurdo!! Tua análise tb está boa e de fato ela junta elementos de vários momentos. Valeu!!
Um abração
Bea