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segunda-feira, novembro 02, 2009

O Menino Selvagem



Para sua época Jean Itard foi muito corajoso. Acolher aquele menino em sua casa para enfrentar o desafio de educar-lhe e ensinar sobre as coisas do nosso mundo foi realmente um ato de muita coragem. Levando em conta os preconceitos da época, a visão que as pessoas faziam do menino chegando a tachá-lo como louco, o viam como uma coisa bizarra. Mas para Jean Itard, tratava-se de um menino que foi abandonado na floresta e aprendeu a viver segundo o meio em que se criou. Acreditava que o menino poderia ser educado. E o tenta fazer acredito eu que com sucesso.

A primeira coisa fundamental penso que foi a questão de fazer o menino sentir-se com confiança. Relembrando o filme veremos que os primeiros contatos do menino com os homens foram desastrosos e dolorosos para ele, pois primeiro foi a caçada empreendida pelos moradores daquela aldeia, depois a hostilidade dos aldeões e por fim a hostilidade de seus colegas quando levado para aquela instituição de meninos surdos-mudos. Ainda em sua casa procura estar sempre em companhia do menino, dessa forma acaba criando vínculo afetivo, o que considero importante em processos de aprendizagem, principalmente com crianças. Depois disso começam as tentativas de educar o menino aos costumes da cidade.

A paciência foi fator importante para a educação do menino. Limpá-lo quantas vezes fossem necessárias a cada vez que derramava a sopa da colher por não saber utilizá-la, calçar os sapatos, ensiná-lo a andar com a postura ereta, entre outras coisas. A questão da repetição para a aprendizagem do menino foi fundamental, pois considerando que nunca tinha feito aquelas coisas, precisava errar várias vezes para poder acertar mais tarde. É assim que aprendemos, principalmente quando somos crianças. A repetição foi importante para que ele pudesse memorizar suas ações. Quantas vezes, por exemplo, ele teve que tentar pegar os peixes no riacho, como aparece no início do filme, até saber a hora exata de fazê-lo sem errar o bote? Jean Itard se utilizou disso, tentativa e erro, para ensinar o menino.

Depois de certo momento em que acreditava que o menino já fazia juízo de valores, passou a castigá-lo cada vez que fazia uma coisa errada. Como acontece hoje na nossa sociedade e, na sociedade da época. Estava lhe ensino valores. O quarto escuro mostra bem isso como o menino já tinha construído a questão da justiça, pois em determinado momento quando o menino acertou a colocação dos objetos em seus lugares, Jean o manda para o quarto escuro e ele se revoltar por entender que não havia feito algo errado. Jean Itard conseguiu provar que o menino era capaz de aprender, que o menino era inteligente e não idiota como muitos pensavam.

Considerando a história dos surdos e a trajetória da luta pelo reconhecimento de uma cultura surda, penso que as diferenças são poucas em relação à questão do menino selvagem. Já relatei em outro trabalho que tenho um irmão que não fala. Ele tem cinqueta anos de idade. Lembro de como ele era tratado por amigos nossos e vizinhos: uns o chamavam de mudinho, gaguinho, louquinho, etc. Como deve acontecer ainda hoje em muitas escolas e, principalmente escolas onde não há informação e que as pessoas sejam de baixa condição sócio econômica. A falta de informação produz muito preconceito. Era o que acontecia no filme e o que acontece até hoje.

Por tudo que vimos na História dos Surdos, na Unidade 2, podemos dizer que existe muita semelhança entre Victor e a trajetória dos surdos na história da humanidade.

Assim como o filósofo grego Sócrates questiona a importância de haver uma forma de comunicação para aquelas pessoas que não falam e não ouvem, Jean Itard também pensou que o menino selvagem poderia ser educado de alguma forma e, tentou crias um jeito para fazer isso. Da mesma maneira como foi feito para os surdos ao longo dos anos. Uma forma de comunicação que não utilizasse a fala: comunicação através de sinais. Assim como Victor os surdos durante muito tempo sofreram e, penso que sofrem ainda hoje, muita discriminação. Citando o caso do meu irmão: quando as mulheres se aproximavam dele, logo desistiam de namorá-lo em função da comunicação e da pressão dos familiares. Foram vários relatos que nos chegaram de que as famílias das namoradas questionavam como casar-se com uma pessoa muda. E foram vários os casos. Até que ele casou-se e hoje tem sua família. Victor sofreu preconceito e teve que abandonar a escola, mesmo na escola que era destinada a alunos surdos-mudos. Os surdos ao longo dos tempos sofreram, assim como Victor, muitos preconceitos, só pra citar um período: na Idade Média os surdos foram alvo de curiosos, da mesma forma como Victor foi anunciado como uma atração bizarra pelos funcionários da escola de surdos-mudos para onde ele foi levado. Mas inda hoje tudo que é diferente é alvo de curiosos. Se por exemplo, passamos ou vimos pessoas falando em LIBRAS, chama-nos a atenção por não ser uma situação corriqueira.

Por isso, penso que temos que avançar muito na discussão sobre a cultura dos surdos. Enxergá-los como um grupo com cultura própria dentro da sociedade é fundamental para quebrar certos preconceitos. A formação de professores para atuarem nas redes públicas de ensino é ponto vital para derrubarmos as barreiras que separam surdos de não surdos.

REFERÊNCIAS:

http://www.pead.faced.ufrgs.br/sites/publico/eixo7/libras/unidade2/historia_surdos.htm

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/cinema/dossier/meninoselvagem.pdf

Filme: O Menino Selvagem


sexta-feira, outubro 23, 2009

Linguagem – Narrativa Infantil

A transcrição abaixo é de uma história contada pela menina Alexandra, que tem seis anos de idade. Ela estuda na E.E.E.F. David Canabarro no bairro Jardim Leopoldina em Porto Alegre.

“Era uma vez uma formiguinha, aí ela estava precurando comigo, procurando comida. Aí ela estava numa, numa praça, só que uma criancinha pego e piso nela, ela fico com as perninhas pra cima, a cabeça dobrada e toda dividida. Aí – risos – aí a formigui..., aí a formiguinha, a mãe da formiguinha pego a formiguinha e daí enterra a formiguinha, e a formiguinha fico toda esborrachada”.

Perguntei: Por que o menino pisou na formiga?

Resposta: “Por que uma formiga pico ele e não sabia aí a formiga prego, aí ele pego e piso na nessa formiga”.

Perguntei: A formiguinha pisou nele também?

Resposta: “Não a formiguinha picou ele”.

Perguntei: “E aí a formiguinha picou ele e daí?

Resposta: “Piso na formiguinha. Aí depois a formiguinha fico muito mal, só que aí ela desencarnou e viveu.

Perguntei: O que é desencarnar?

Resposta: “Nã é volta pa vive.

A história que a Alexandra nos conta demonstra como ela mistura realidade e ficção, como é próprio para uma menina da sua idade, segundo Maria Cecília Perroni em seu livro Desenvolvimento do Discurso Narrativo.

Ao mesmo tempo em que faz referências a situações que ela já pode ter vivenciado, como brincar em uma praça, ser picada por uma formiga e depois matá-la, ela pode realmente conhecer histórias que falam sobre formigas e a relação delas com os seres humanos.

Podemos perceber também que a menina, seja na escola ou em casa, já está habituada a ouvir histórias, pois a expressão: “Era uma vez...”, é um indício de que ela já participou de alguma contação de história como ouvinte. Agora faz dessa expressão parte de seu repertório como contadora de suas histórias.

Quando provoco a menina fazendo indagações, me parece que sua justificativa tem a ver com a realidade que vivemos. Pois, se a formiga picou o menino, é normal que ele revide pisando nela. Via de regra é isso que tem acontecido nas escolas com nossos alunos, porque é assim que acontece na sociedade. Sendo assim, na história é possível que isso aconteça também.

Mai um aspecto interessante na narrativa da Alexandra é o desfecho da história. Há claramente a mistura entre realidade e ficção: a formiga desencarna. Possivelmente a menina já deve ter ouvido conversas entre adultos que fale sobre desencarnar e reencarnar. Morrer para nascer de novo. Assim como nas histórias tradicionais infantis as coisas terminam bem, na história da Alexandra não foi diferente: ”... só que aí ela desencarnou e viveu”. Só faltou o: “Casaram-se e foram felizes para sempre”.

REFERÊNCIAS

Tem um monstro no meio da história (GURGEL, 2009).

In: Revista Nova Escola. Agosto 2009.

O vídeo abaixo apresenta a menina contando sua história da Formiguinha.


quarta-feira, outubro 21, 2009

Linguagem e Educação

Desde os primórdios o homem vem se adaptando no mundo e produzindo formas de comunicação. As pinturas rupestres nas cavernas de Altamira, na Espanha nos mostram alguns indícios do porque das pinturas. Elas tinham como objetivo a comunicação entre os integrantes de um mesmo grupo, além do significado ritualístico. Segundo Graça Proença (2000) o homem que viveu na Idade da Pedra Lascada acreditava que: “... poderia matar o animal verdadeiro desde que o representasse ferido mortalmente num desenho”.
O mundo evoluiu e as formas de comunicação e representação das mesmas também. Especialmente no nosso tempo vivemos um dilema: nossos jovens estão fazendo uso das novas TICs. Por um lado isso é positivo, mas por outro há uma preocupação por parte de muitos educadores com a forma como a comunicação se dá. No meio virtual parece que tudo pode. Eles entenderam essa mensagem e trataram logo de criar uma nova forma de se comunicar, em relação à escrita, nas salas de bate papo. Criou-se uma “nova língua”: o Internetês. E muitos acreditam que podem transferir para a escrita formal o modo como escrevem na internet. Ou estão justificando os erros por conta do costume em escrever no computador.
Desde o Paleolítico Superior até nosso tempo muita coisa mudou na forma de os seres humanos se comunicarem e os recursos utilizados para tais comunicações. A história da humanidade nos comprova ao longo do tempo que muitas são as formas de falar/escrever/ler, nos mais variados segmentos das sociedades mundo a fora.
Cabe a nós educadores promover o debate entre os alunos, sobre este tema, para que eles percebam a importância da escrita formal enquanto meio de comunicação. Entendo que dessa forma um maior número de pessoas poderá ter acesso e entendimento daquilo que se está querendo comunicar, pois nem todas as pessoas dominam as novas formas de comunicação que os meios tecnológicos propiciam.